Espelho, espelho meu

Sobre nossa incapacidade de assumir o que somos e fazemos

Não estou dizendo que isso seja uma característica única e exclusivamente do espírito tupiniquim – pode até ser que seja inerente ao Ocidente –, mas o que importa é que se trata de um fator de nossa cultura muito importante para ser deixado de lado: a incapacidade de conseguir reconhecer certos traços de nosso próprio caráter.

Tive até mais certeza disso quando li o excelente Nem preto nem branco, muito pelo contrário, livro da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz que tem o subtítulo autoexplicativo “cor e raça na sociabilidade brasileira”. Ela desconstrói o já combalido mito da igualdade racial brasileira. No percurso, aponta dados interessantíssimos.

Pesquisas realizadas com resultados equivalentes em 1988, 1995 e 2011 indicavam que todo brasileiro “parece se sentir (…) como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados”. Em 1988, por exemplo, 97% disseram não ter preconceito, mas, desses, 98% afirmaram conhecer alguém que o tinha, com o agravante de ser figura próxima: um pai, um tio, um vizinho.

Esses resultados podem ser estendidos para outras áreas da vida brasileira. Temos uma inabilidade crônica de entender que, por exemplo, a corrupção, esse bode expiatório da classe média sofrida, é culpa nossa. Não porque elegemos corruptos, mas porque construímos uma sociedade que leva à política, o mais das vezes, sujeitos que estão desesperados apenas por dinheiro e poder.

Perguntemos às pessoas na rua: “Qual o maior problema da educação no Brasil?”. Respostas comuns: “Ah, o brasileiro não se interessa por leitura nem programas educativos”. A pergunta seguinte, então, tem de ser: “Mas quantos livros o senhor já leu este ano?”. Alguém tem dúvida de qual será a resposta?

O “problema” do Brasil não é porque eles são corruptos, eles não leem, eles são preconceituosos, mas porque não percebemos que, na verdade, nós somos corruptos, nós não lemos, nós somos preconceituosos. Mais espelho, por favor. E menos Feliciano.

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Do que estamos falando

Entenderam errado o que se chama pejorativamente de “politicamente correto”. Vou tentar explicar de modo telegráfico em dois mil caracteres. 

O politicamente correto não é bem o que vocês estão pensando. Os humoristas paulistanos – se autointitulando politicamente incorretos – de fato não ajudaram muito a entender o conceito. As conversas de bar provam que nem de longe a ideia por trás do termo foi de algum modo contemplada.

O politicamente correto não é uma patrulha. Nem está pretendendo que você deixe de falar palavrão ou mesmo de xingar pessoas. Fique à vontade. O ódio é seu. O que o conceito pretende é desnaturalizar o mundo. Repita. “Desnaturalizar” significa fazer com que algo aparentemente natural deixe de sê-lo. Qual o intuito dessa atrocidade? Simples: só quando se percebe o mundo como um lugar onde até as coisas mais simples são estranhas é que se pode tentar mudá-lo. Para melhor.

Enquanto o mundo é dado, imutável, sempre-assim, desde-a-minha-avó, então, tudo fica igual. Mas, ao se notar que não é natural comer de garfo ou aprender português, é que poderemos entender do que eu estou falando quando falo de politicamente correto.

Nesse embate de estranhamento com o mundo real, vamos percebendo que existem algumas coisas erradas nesse lugar absurdo. Por exemplo, alguns grupos lançam estigmas sobre outros grupos. Isso não é estranho? Isso não é esquisito? Assim, por que seria verdade o que meu vizinho falou sobre negros? O evidente, a obviedade, a naturalidade se desfazem.

Ou seja, cria-se um negócio chamado discurso. Todo discurso é uma forma de dominação. Poderia ser um discurso sobre a beleza do mar. Mas foi sobre os negros. E, diferente daquele acerca do mar, não foi elogioso. Então, ao se desnaturalizar o mundo, você entende que, tanto quanto a “poética do oceano” é inventada (não tem nada de intrinsecamente bonito no mar), pensar em gay como promíscuo é uma construção. E toda construção pode ser refeita.

O considerado politicamente correto tenta dizer que o mundo herdado de seus pais não é eterno. Pode ser alterado. Mais ainda: o mundo precisa de atenção. Ou vamos construí-lo como temos feito, do pior jeito.

Paródia de uma guerra

Já são 50 anos desde que os ânimos se exaltaram entre França e Brasil pela pesca da lagosta em águas nordestinas. O conflito era não apenas uma disputa econômica internacional, mas um campo de batalha simbólico entre o governo João Goulart e os militares, às vésperas do Golpe de 1964

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A situação se complicou na quinta-feira da semana do Carnaval de 1963 – há 50 anos. O governo francês avisou ao Itamaraty que o Brasil teria de lidar com o contratorpedeiro Tartu resguardando os barcos gauleses que pescavam ilegalmente lagosta na costa nordestina. A pedido do presidente João Goulart, Marinha e Aeronáutica reforçam suas bases por aqui. Estava oficializada a Operação Lagosta ou, como é mais conhecida, a Guerra da Lagosta, entrevero diplomático que opôs a incipiente indústria brasileira do crustáceo à tecnologia francesa, já experimentada e aperfeiçoada na pesca predatória das colônias africanas.

Daquele dia em diante, o clima de tensão não se desvanece logo. Diversos navios e aeronaves ficam a postos para o caso de necessidade efetiva. Até o Exército contribui. Só vai mesmo arrefecer em março com a debandada francesa – e a prevalência nacional sobre a lagosta. Nenhum tiro foi disparado, porque a grande disputa permaneceu principalmente no terreno do simbólico e do econômico.

“Se a Guerra da Lagosta foi uma espécie de laboratório pró-reformas para Jango, foi igualmente um laboratório pré-golpe para os militares, que revelavam não só em discursos, mas também em gestos, suas intenções de ruptura com o poder institucional”, escreve o doutor em História pela Universidade de Coimbra, Túlio Muniz, em artigo dedicado ao tema.

Com a reação imediata das Forças Armadas, elas acabaram obtendo “maior simpatia perante a opinião pública. Invariavelmente, os militares tomavam decisões sem consultar Brasília”, esclarece Muniz em entrevista por e-mail. Exatamente um ano após a Guerra, viria o golpe de estado que implantaria uma ditadura no País. No caso do conflito pela lagosta, houve intensa colaboração dos jornais em todo o território para construir um discurso que valorizasse o nacional em detrimento do poder francês. Nesse bojo, os militares estavam amplamente referendados.

“O que estava se disputando então era a captura de um produto que já fazia parte da pauta de exportação do Brasil e que possuía valor agregado. Até o início da década de 1950, os pescadores trabalhavam para consumo próprio. Em 1955 passa a ser produto voltado para o mercado externo”, destaca a professora do departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Maria do Céu de Lima.

O ano de 1955 é marco por conta da atuação do norte-americano Davis Morgan que montou uma indústria pesqueira de lagosta, a princípio, nas praias de Caponga e Morro Branco. De lá até o momento da “Guerra”, a exportação chegou a movimentar um bilhão de cruzeiros ao ano, como publica O POVO no dia 1º de março de 1963, logo acima de manchete apontando que o Exército estaria preparado para agir por ocasião de uma eventual batalha terrestre.

E os pescadores artesanais de antes tiveram de se enquadrar e se relacionar com esse modus operandi industrial ainda incipiente. É exatamente o empresariado nascente que permite a manutenção de saberes que poderiam ter desaparecido caso o crustáceo não tivesse retorno econômico garantido.

Nos discursos oficiais e da mídia escrita na Guerra, como explica Muniz, os pescadores surgiam em papel coadjuvantes. “Neste cenário, a defesa de interesses supostamente nacionais surge aos pescadores mais como defesa de interesses de um grupo empresarial específico do que da população”, analisa.

Saiba mais
A marcha da lagosta
O Brasil argumentava que o crustáceo caminhava, logo pertencente ao solo nacional. A França alegava que a lagosta era um peixe, nadava, logo um recurso de alto-mar e não apenas brasileiro.

Marchinhas de Carnaval se espalharam. A Marcha da Lagosta parodia o hino francês: “Larga esta lagosta /Deixa de areia /Senão vai dar coisa feia /Faço uma proposta pra você (por quoi?) /Faço um acordo de irmão / Traga uma francesa pra mim / E leve tudo, leve até o camarão”.

Operação Rónai

O mercado editorial relança obras do tradutor Paulo Rónai que estavam há anos fora de catálogo. Entre elas, A tradução vivida e Escola de Tradutores, dois livros sobre a arte de lidar com a palavra

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Faz todo o sentido que o tradutor húngaro-brasileiro Paulo Rónai (1907-1992) termine seu livro A tradução vivida com um capítulo sobre o exaustivo trabalho que realizou para a Editora Globo, ainda em Porto Alegre, coordenando as edições de A Comédia Humana, de Honoré de Balzac (1799-1850). A Comédia, em 17 volumes, e A tradução marcam profundamente a vida literária de Rónai: o primeiro, porque o esforço de organizar mais de 20 tradutores que verteram ao português 89 romances lhe tomou nove anos – e talvez seja este seu empreendimento mais conhecido; o segundo, porque é um compêndio com a essência do conhecimento tradutório, aquilo que ele precisou de uma vida para construir. Há muito fora de catálogo, as recentes edições desses trabalhos são parte de uma espécie de retomada da obra daquele que pode ser considerado nosso maior especialista em tradução. O mercado editorial redescobriu Rónai.

Dele, além de A tradução vivida, há chances de se reler agora Escola de Tradutores, em que discorre ao longo de 21 textos sobre os meandros e particularidades de seu ofício. Em 2013, chega às prateleiras, também pela José Olympio Editora, Pois é, livro com 43 ensaios em que pesam reflexões sobre a língua, e Como aprendi o português e outras aventuras, com o carimbo da Casa da Palavra. Previstos pela Nova Fronteira também para este ano, os 10 volumes de Mar de histórias, coletânea de contos universais cuja edição coordenou com o dicionarista e amigo Aurélio Buarque de Holanda, é outra dessas grandes investidas livrescas que tomaram anos e resultaram em livro basilar no Brasil.

Curioso por se tratar de professor que, embora escrevendo e traduzindo para português, forjou-se em outro idioma materno. Rónai nasceu em Budapeste e veio fugido dos nazistas em 1941, com ajuda de um diplomata brasileiro que conheceu por suas disposições antigas em aprender a língua portuguesa. Só aqui pôde descobrir todas as implicações sociais e linguísticas da palavra “morro”, por exemplo. Idiomas, sabia muitos outros: alemão, francês, italiano, espanhol, latim. Sua importância é total para os estudos de tradução no País – e também no âmbito político ao fundar a Associação Brasileira de Tradutores em 1974.

“Ao reunir em Escola de Tradutores e A tradução vivida seus textos ensaísticos, Rónai introduziu no Brasil o conceito de que a tradução literária – e outras, como a técnica e a científica – era algo que merecia não somente consideração, como minucioso acompanhamento e discussão crítica e teórica”, escreve o crítico Nelson Asher em revista da Universidade de São Paulo (USP) sobre o tema. Enquanto as reflexões acadêmicas sobre a tradução possam se atritar vez em quando com a prática, nesses dois livros, Rónai firma um saber tradutório que não está dissociado do fazer. Dizer que são guias reduziria a amplitude desses trabalhos. Em verdade, são estudos sobre os problemas advindos no ato de traduzir. E, para ele, traduzir era “a maneira ideal de ler e absorver integralmente uma obra-prima”.

Foi assim com A Comédia – que tem, por enquanto, quatro volumes relançados pela Editora Globo. No capítulo dedicado ao tema, em A tradução, ele chamou a tarefa de Operação Balzac. Não somente pelas 12 mil páginas, mas também por características intrínsecas ao texto: o mundo como produto de estudo permanente. Balzac observava e anotava tudo que podia, porque foi justamente essa dinâmica profusa da vida que tentou captar em seus escritos. Dessa forma, personagens fictícios interagem com personalidades reais, figuras que coadjuvam num romance podem ressurgir destacadas em outro. As dificuldades de tradução avultam, e o relato de Rónai se torna um modo de entender o funcionamento de nossa própria língua.

SERVIÇO
Escola de Tradutores
Editora: José Olympio
Autor: Paulo Rónai
Preço médio: R$ 32,00
Páginas: 192

A Tradução Vivida
Editora: José Olympio
Autor: Paulo Rónai
Preço médio: R$ 36,00
Páginas: 256

(Texto publicado no dia 28 de janeiro de 2013, no jornal O POVO)

Manual técnico de uso e montagem

Num mundo distante, uma máquina

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Se você estiver lendo este texto é porque consegui terminá-lo antes que algum dos TSW-32 tenha me encontrado. O que eles poderiam fazer contra mim é mera conjectura, porque não ficamos sabendo para onde são levados os que somem; a orientação é apenas evitar os TSW-32 sempre que possível, seguindo um conjunto de regras como, por exemplo, não entrar nesta sala. Mas, somente depois que estive aqui pela primeira vez no início do ano e percebi que eles só a têm frequentado em períodos cada vez mais esparsos de tempo, pude entender melhor o funcionamento da máquina. Talvez eu não seja o único. Não costumo conversar com meus colegas de quarto, e eles quase nunca mencionam o que descobrem pelos corredores.

De qualquer maneira, a máquina funciona assim: os quatro botões azuis da direita, ao que me consta, servem para condensar as ideias; os três vermelhos da esquerda miram numa coordenada cartográfica qualquer; e os dois verdes de cima escolhem um ou mais pontos específicos da memória – fonético-linguística ou emocional. Apertem-se todos numa coreografia ensaiada e cronometrada, teremos novamente a vida passada. Apenas com as possibilidades desse equipamento, poderia reconstituir uma das maiores preocupações desde que tomei consciência de minha condição nesse lugar: o instante em que nossa civilização se perdeu da sua, como dois continentes apartados, incomunicáveis para sempre; um incidente fartamente desconhecido por nós provocou um corte na história.

Não é algo de que se fale abertamente, mas as propagandas deixam escapar um “naquele tempo” boiando no meio de um discurso sobre as maravilhas do KMT-9 e logo percebo que se trata desse lugar imemorial, quase mítico, um mundo onde ainda era possível sentir certas coisas que já esquecemos ou não queremos lembrar. Evidentemente, estava longe das minhas capacidades garantir que esse país criado na minha cabeça não fosse apenas um universo particular e que, ao contrário, tenha existido no tempo dos homens presentes. Espero que tudo mude com esta pequena máquina. Questiono-me o que pensarão dela os que receberem esta mensagem – se obra de lunático ou, como de fato é, trabalho de quem está tentando deduzir todas as implicações de algumas palavras que me custam muito, como solidão, justiça e amor. Sobre esta última, não é certo que tenha alguma vez servido. Um de meus colegas de quarto compartilhou a informação de um M5 que, embora não proibisse de mencioná-lo (amor é masculino?), exigiu restringir seu uso a conjunturas específicas, tais como a elaboração de cartografias tridimensionais.

Dias mais tarde, fui à biblioteca no final da ala sul, e não há qualquer alusão a esta palavra em nenhum dos ∞ volumes que compõem o acervo. Um U78, com quem converso longamente às tardes de quinta, me confidenciou, sob minha promessa de silêncio, que amor era sentimento perigoso, causa das piores catástrofes e dos melhores destinos. Sobre essa aparente contradição, nada entendia. Disse apenas que não era esdrúxulo não constar mais nos dicionários e nos vocabulários ortográficos por ser artigo morto. E, se é verdade que pode ter visitado o homem sentimento assim tão sem propósito, não assusta que um dia, tão abrupto quanto saiu, ele volte. Temo que isso aconteça. Simultaneamente, aguardo seu regresso. Espero pelo dia em que ele voltará para nos lembrar do que fomos, para nos mostrar como ou por quê nos perdemos de nós. Anseio pelo instante que poderei ter coragem, algo muito semelhante ao amor – dado apenas àqueles que se dispõem a amar, como destacou o U78 num lapso revelador de que haveria aí algo de revolucionário.

Tenho procurado conter o êxtase diante dessas preciosidades excêntricas – a máquina, o amor, partida e retorno. No entanto, serão de pouca valia. Ainda não compreendo alguns mecanismos do equipamento. O de reciprocidade, por exemplo. Mesmo tendo conseguido operar com desenvoltura todos os botões, nunca saberei se alguém que viveu antes do talhe no tecido da história decodificará corretamente esta mensagem e poderá respondê-la. Chego à conclusão agora, embora já intuísse antes, que todo o esforço de me esgueirar pelos corredores da dangerosíssima ala norte até aqui não foi além de afronta aos TSW-32. Talvez a função dessa missiva seja apenas esta: ser escrita como forma de desdobrar o tempo, de me fazer menos mortal. Mas, se nada restar dessas linhas, se ninguém as ler ou se um extravio qualquer dessa máquina nos desvie novamente de nós, espero apenas que, em algum lugar de nossa existência passada, permaneça ao menos um eco de meus desejos: minha vontade de que seu mundo não deságue no nosso; seu mundo, um lugar onde seja simplesmente menos difícil… amar?

(Este conto, escrito por mim, foi publicado na edição do dia 24 de dezembro do jornal O Povo como parte do projeto sobre Desejos de Natal)

 

A pequena lamúria do professor de Filosofia Henri Brodwski

E, se o mundo acabasse hoje, como um repórter contaria (ou não) essa história?

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(Ilhas Malvinas. Foto do escritor João Paulo Cuenca)

O professor de Filosofia Henri Brodwski, da Universidade de Nordrein-Westfallen, a prestigiosa instituição de ensino que fica às margens do Reno, encontrou um problema de lógica no fim dos tempos. “É preciso explicar que a exaustão do mundo [Welterschöpfung] não se trata, em absoluto, do fim de toda a delicadeza, a poesia, a doçura, a mansuetude, a fleuma, a suavidade humanas – e suas respectivas tragédias. Tal fenômeno, a saber, a morte bárbara e crudelíssima de tudo o que construímos é ontologicamente impossível”, declarou em palestra pública que lotou o auditório em pleno verão teutônico, quando os alemães estão mais interessados em beber cerveja e ficar pelados nos parques.

Prova de que o fim do mundo é assunto do mais alto gabarito filosófico foram as quase três horas que gastou à guisa de exposição do problema. “Logicamente falando, existem inúmeros mundos possíveis em que o professor de Filosofia Henri Brodwski também está palestrando diante de uma plateia de alunos embevecidos sobre o fim daquele que seria, para eles, o único mundo viável. Há tantos mundos possíveis em que o professor de Filosofia Henri Brodwski morre e tantos em que ele vive para sempre que nunca poderia considerar que estarei, um dia sequer em minha vida, morto”, complica o doutor. Haveria ainda, segundo ele, um mundo possível que consiste em duas linhas paralelas infinitas. No frigir dos ovos, sempre existe a possibilidade [Möglichkeit] de nos mudarmos para lá, ele afirma.

A tese é altamente questionada entre os pesquisadores brasileiros, patrocinados pelo CNPq, pela Capes e por fundações estaduais. Para muitos, a civilização ocidental, e somente ela, deverá acabar porque “o professor de Filosofia Henri Brodwski entendeu exatamente tudo errado”, bradou no jornal um deles, que tem nome português e sobrenome francês ou inglês ou alemão. Este mesmo termina seu artigo irritadiço afirmando categoricamente que há provas empíricas da inexpressividade do mundo diante da astrologia, da quiromancia e, em grande medida, é claro, das previsões aborígenes americanas.

De modo que cataclismos totais, explosões mudas, ventos vermelhos e mares bravios foram esperados durante toda a tarde de ontem nas paragens mais longínquas de nosso país – enquanto europeus, influenciados pela doutrina Brodwski, como já começavam a se chamar as ideias do professor de Filosofia Henri Brodwski, talvez decidiram eles todos sair aos parques para aproveitar o misterioso sol que faria àqueles dias, como um pré-defunto que melhora às portas da morte.

Não se tem, até agora, nenhuma notícia do que se passa na Europa; é capaz de ter uma boa récua se mudado para algum dos mundos possíveis brodwskianos, e o fim do nosso será de segunda mão, com prazo de validade vencido ou precisando urgentemente de ir para a assistência técnica, como é de praxe. O fato é que, diante de uma lógica fraturada, toda a pujança do fim se inibiu, minguou. Não é ainda seguro afirmar que o mundo não se acabou. Pesquisadores ouvidos ontem por este correio têm se negado a dar uma declaração assim tão peremptória.

As ruas escuras, mesmo de dia, com um céu que pareceu se fechar, com o silêncio aterrador que fazia na Beira-Mar sem turistas sexuais ou estátuas humanas não asseguram que nosso mundo possível está ruindo, mas apenas que Fortaleza se tornou uma cidade fantasma, o que não teria assustado o professor de Filosofia Henri Brodwski que, se houvesse uma vez visitado Fortaleza, teria dito: “Há um mundo possível em que Fortaleza não é uma cidade melancólica. Somente num mundo possível, que ainda está por vir, para o qual todos ainda iremos em qualquer vida possível, Fortaleza não será uma cidade fantasma. Por enquanto, você vive o mundo possível – o pior mundo possível”. Ao ser questionado sobre uma solução, ele diria: “Não há solução nos mundos possíveis, apenas a vida vivida”. Ou talvez ainda dissesse: “Este mundo em que você vive, Fortaleza?, chame como quiser, pois este mundo em que você vive pode estar dentro de um poema, já pensou nesse clichê tão repisado quanto o próprio fim do mundo? Já pensou se seu mundo possível for apenas um longo poema nunca terminado – tão possível quanto o fim do mundo num mundo possível? No melhor dos mundos, ele poderia ser um poema de T.S. Eliot. Pelo menos, Fortaleza poderia ter a chance de ser as últimas horas no último verso de Homens Ocos, que conclui: ‘É assim que o mundo acaba – não com uma explosão, mas com uma lamúria’”.

(Este conto escrito por mim foi publicado no caderno Vida&Arte do jornal O POVO no dia 16 de dezembro. Só gente boa me acompanhou: o cineasta Salomão Santana, o jornalista e escritor Henrique Araújo, a professora e escritora Tércia Montenegro, o escritor Urik Paiva e o designer Yuri Leonardo. Para ler os outros textos, clique aqui).

Uma literatura de martelos e foices

Podemos ainda descobrir que a literatura do chinês Mo Yan, o Nobel de Literatura pró-governo, é tão contestatória quanto os protestos de militantes anti-comunismo no país

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Para mim, o prêmio Nobel de Literatura deste ano é ainda uma incógnita. Filiado ao Partido Comunista chinês e vice-presidente da associação de escritores apoiada pelo governo, Mo Yan –  um pseudônimo que significa, em português, Não Falar – defendeu na última quinta-feira, 6, que a censura, “por si só, tenha o mais elevado princípio”. Pior: que qualquer difamação ou rumor “deve ser censurado”. Saiu ainda pela tangente quando lhe questionaram sobre o Nobel da Paz de 2010, Liu Xiaobo, condenado desde 2009 por ter escrito em favor de um regime democrático no país.

Mesmo assim atolado em política, se negou a mencionar, no dia seguinte, em Estocolmo, o assunto no primeiro discurso que fez como forma de agradecimento à reverência ocidental a seus livros. Dedicou simbolicamente os milhões de euros que receberá à mãe analfabeta e morta em 1994; relembrou a infância “cruelmente marcada pelo abandono da escolaridade, pela fome, pela solidão e pela ausência de livros”. E encerrou quase com uma justificativa sobre seu dístico: “Para um escritor, a melhor forma de falar é a escrita. Tudo o que eu tenho a dizer, já o disse nas minhas obras”.

A aparente incoerência está precisamente aí. The Republic of Wine (A República do Vinho, em tradução livre, ainda não publicado no Brasil), por exemplo, não é senão uma pequena parábola ou uma saborosa alfinetada política no modo de fabricar pessoas para a máquina de moer carne que é a China contemporânea.

Não pretendo simplificar as coisas, mas vejam só: Ding Gou’er, um investigador de meia-idade, é levado à província fictícia de Liquorland (ou Terra do Licor) para descobrir, sob os eflúvios do álcool, que inúmeras crianças na região estão sendo mortas e, literalmente, comidas por altos funcionários do Partido. Sempre mais bêbado, ele é enredado numa teia de aranha local – e partidária. Estaria errado se pensasse que o escritor está identificando tecido podre não propriamente no Estado, mas no jeito de ser da sociedade chinesa?

A escrita de Mo Yan faz a postura do escritor, às vezes, parecer um jogo duplo. A tudo é dado à literatura. É lá onde estão também, e talvez principalmente, os problemas do mundo, e ele não dá sinais de que esteja se furtando a isso. Porque, depois que seu nome foi anunciado em outubro, a impressão era de que, mesmo influenciado por Gabriel Garcia Márquez, não havia nada na obra que pudesse se assemelhar à maneira que o colombiano tem de entender e denunciar as feridas da vida. Um pobre alienado de esquerda.

Não estou dizendo que  o chinês é um liberal, um democrata, escondido atrás de uma vitrine cheia de foices e martelos, mas, quando, sei lá, a Companhia das Letras começar a despejar as traduções dos livros dele no mercado, é preciso atentar para a coisa mais óbvia vez ou outra esquecida por leitores e críticos: muito maior, mais contestatório e duradouro do que as palavras de Guǎn Móyè será o projeto literário tecido linha a linha, obra a obra e, até certo ponto, independente de sua vontade. E é o que me pareceu.